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Mylene Pereira superou diversos obstáculos para se tornar juíza

Mylene Pereira de vestido verde

Mylene Pereira decidiu que iria estudar Direito quando estava no ônibus, a caminho da inscrição no vestibular. Mal sabia ela que essa escolha veio sendo nutrida desde criança, junto aos pais batalhadores, que com muito esforço nunca deixaram faltar nada dentro de casa.

A mãe, Jacyra das Dores Ramos, veio de Minas Gerais trabalhar como empregada doméstica. O pai, Abilio Pereira Ramos, pegou carona de pau de arara da Bahia até São Paulo e logo começou a trabalhar como mecânico na construção do metrô. Os patrões dele distribuíam um tipo de remédio para que os trabalhadores não dormissem e, assim, rendessem mais. Depois de três noites sem dormir, o pai de Mylene sofreu um derrame cerebral, aos 36 anos.

“Eu via muitas injustiças durante a minha infância e adolescência e, apesar de não ter um plano na minha cabeça, pensei ‘por que não fazer Direito?’”, relembra Mylene. Não foi à toa que ela decidiu se especializar em Direito Trabalhista, área que, segundo Mylene, não tem tanto prestígio entre os magistrados.

A experiência de ver meus pais trabalhadores tão humilhados e explorados me fez tomar esta decisão. E eu sou muito feliz com o que faço.

O caminho até se tornar juíza não foi dos mais fáceis. Mas nem passou pela cabeça de Mylene desistir. Ela tinha estudado a vida inteira em escolas públicas “da pior qualidade”, em suas próprias palavras, e quando chegou ao terceiro ano do Ensino Médio, não tinha condições de prestar vestibular para uma boa faculdade. Lembrou de um anel de brilhantes que havia dividido em 10 parcelas e pago com o dinheiro do seu trabalho, aos 15 anos. Vendeu-o e, com o dinheiro, pagou um mês de um cursinho intensivo pré-vestibular e passou no curso de Direito da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

O que a ajudou também foi o fato de sempre ter gostado de ler sobre tudo. “Eu morava no bairro de Campo Grande, que fica na periferia da zona sul de São Paulo, e ia a pé até a biblioteca mais próxima toda semana, que ficava no Largo Treze, em Santo Amaro, a 6 km da minha casa”, conta. A patroa de sua mãe, dona Silvia, foi quem a ajudou a conseguir uma bolsa de estudos na Universidade Presbiteriana MacKenzie. Em sua sala, só havia ela e um outro aluno negro. “Eu sentava lá no fundo e poucas pessoas falavam comigo”, diz. “É engraçado encontrar com algumas delas hoje no tribunal. Elas me olham com uma certa expressão de espanto, sem acreditar que eu chegaria até ali”, conta.

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A determinação e a garra de Mylene Pereira

Durante o curso, que tem duração de cinco anos, Mylene não deixou de trabalhar em nenhum momento. No tempo livre, estudava. Foi montadora de caixas e envelopes, vendedora de cosméticos com catálogo e corretora imobiliária. Quando chegava da faculdade, ainda fazia bolo para vender no dia seguinte para os colegas de classe.

Como fez faculdade antes da era do bilhete único em São Paulo, que oferece até quatro viagens no período de três horas pagando apenas uma tarifa, Mylene não tinha dinheiro suficiente para pagar todas as conduções até sua casa. Foram muitas e muitas vezes que teve de ir caminhando do Mackenzie, na Av. Consolação, até o Vale do Anhangabaú para pegar um único ônibus. Fazia esse trajeto sozinha, depois das 22h30. Um dia, que a aula foi até mais tarde, perdeu a última condução que saía do Vale do Anhangabaú e teve de ir caminhando até o Parque do Ibirapuera para pegar um ônibus circular noturno de lá.

“Eu tento passar para as pessoas que você tem que continuar, sempre. Não importa se você é discriminado, afinal isso faz parte do cotidiano de quem é negro. É importante você usar tudo isso para se empoderar, para se fortalecer”, diz Mylene.

Eu só tenho a agradecer a todo o racismo e preconceito que eu sofri, pois eles me fizeram ser o que eu sou.

A juíza diz que sua grande motivação foi o seu pai, que tinha muito orgulho dela. Era amigo de todos e gostava de passear a seu lado para contar para todo mundo que sua caçula seria advogada. Segundo Mylene, ele tinha um coração e um caráter de ouro. Seu Abílio morreu em decorrência de uma infecção urinária mal tratada aos 51 anos, na semana em que Mylene se formou como advogada.

Hoje, Mylene, que tem exatamente a mesma idade que o pai tinha quando faleceu, inspira outros jovens da periferia a trilharem o mesmo caminho. Recentemente, em uma reunião com outros juízes, um rapaz negro entrou para servir café. Ao sair da sala de reunião, ele pediu licença para falar com ela e disse estar muito feliz por saber que havia uma juíza negra como ele. “Ele me disse que tinha comentado com todo mundo na cozinha e na casa dele que tinha visto uma mulher, juíza, negra e com os cabelos crespos de verdade”, conta. “Ele falou pra mim que, ao me ver, teve a sensação de que também pode chegar lá. É isso que me motiva.”

Sua maior dica é não deixar de sonhar.

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