Inspire-se > Negócios brilhantes

De Taboão da Serra para Cannes, a trajetória do publicitário Ian Black

Ian black com copo na mão encostado em mesa branca

O publicitário Ian Black cresceu em Pirajussara, bairro pobre de Taboão da Serra, no município de São Paulo. Sempre estudou em escolas públicas, mas aproveitou ao máximo o que elas tinham para oferecer. “Eu sempre gostei de inglês e a aula me envolvia bastante”, relembra. Seus pais incentivavam a cultura dentro de casa e, por isso, Ian vivia cercado de gibis, filmes e fitas de videogame. “Isso ajudou a formar o meu background cultural.” Hoje, Ian é dono da agência de publicidade New Vegas e já ganhou dois prêmios em Cannes, no maior festival de publicidade do mundo. Mas vamos entender como foi que ele chegou lá nas linhas a seguir.

Na época em que era criança ainda não havia internet, por isso não tinha muitas referências que fossem além de seus pais, dos amigos e dos vizinhos. “Todos ao meu redor não tiveram educação formal e os empregos eram os mais básicos”, diz. “Lá, se você consegue um emprego na firma e bate cartão todos os dias, sua mãe já fica muito feliz.” Ian nunca se contentou com as opções que foram apresentadas a ele naquele cenário. Resolveu, então, correr atrás do que queria fazer.

Esse movimento pessoal coincidiu com o surgimento da internet, que trouxe uma série de ideias, além de apresentar e conectar Ian a pessoas interessantes. “A internet me desafiou a pensar de outras maneiras. Comecei a escrever em blog em 2000, quando poucas pessoas ainda se arriscavam nesse universo”, conta. Mal imaginava ele que, por causa da escrita, diversas portas se abririam no futuro.

Ian Black sempre acreditou que podia ir além

Ian não terminou nenhum curso universitário. Passou no vestibular para serviço social e abandonou no primeiro semestre. Foi estudar redes e webdesign e desistiu pouco tempo depois. Começou pedagogia e viu que não queria dar aula.

Não é que eu despreze a educação formal, mas existe um hábito nocivo de que você vai aprender o que precisa na faculdade. Isso é uma ilusão.

Ele acredita que há uma supervalorização do ensino superior no Brasil que não necessariamente se traduz em uma fórmula de sucesso para a carreira profissional. “Vendem a ideia de que você vai sair completo e com emprego quando fizer um curso superior. Eu acho que o que aprendemos nos 20 anos antes te define muito mais”, afirma.

O primeiro grande desafio de quem nasceu e cresceu nos extremos da cidade, na opinião de Ian, é conseguir “quebrar a ‘Matrix’ da periferia”. Isso significa acreditar que você é capaz de ir além. E o incentivo da família, nesse caso, faz toda diferença. “Tive pais muito simples, mas que, de uma maneira um pouco torta, sempre me incentivaram a ser curioso e me manter dentro de casa”, conta. “Aquele velho ditado ‘diga-me com quem andas que te direi quem és’ faz muito sentido na periferia.”

Ian Black começou a trabalhar dando suporte técnico de informática de madrugada — e odiava esse emprego. “Eu trabalhava 6 horas por dia de madrugada e não via a hora de me livrar daquilo.” Viu a oportunidade da vida aparecer diante de seus olhos quando soube que uma agência de publicidade estava à procura de pessoas que entendessem de blogs. “Era 2007 e eu tinha experiência com aquilo desde 2000”, relembra. Começou a se dividir entre os dois empregos: no suporte técnico da madrugada, revezava algumas horas de sono com um colega para aguentar o tranco durante o dia na agência de publicidade. E assim Ian começou a se envolver com o trabalho de seus sonhos — e, nada mais natural, que começasse a se destacar por isso.

A abertura do próprio negócio

Trabalhou por dois anos no ritmo agitado das agências e se tornou referência no mercado quando o assunto eram redes sociais. Em 2009, decidiu pedir demissão e começar a trabalhar sozinho em casa. “Notei que eu trabalhava menos e ganhava mais”, conta. Dali um tempo, um amigo passou um trabalho para ele que era grande e com uma boa remuneração. Mas, para isso, ele precisaria de ajuda. Convidou dois amigos, alugou um apartamento no bairro de Pinheiros, em São Paulo, e chamou-os para morar e trabalhar no mesmo espaço para atender esse cliente. O grande problema foi que cancelaram esse trabalho.

Ian se viu numa “sinuca de bico”, afinal, os amigos tinham se demitido de seus empregos anteriores para abraçar a causa. “Eu não tive alternativa. Comecei a ir atrás de outros trabalhos, diminuí meus ganhos mensais em três vezes e peguei trabalhos menores para poder pagar as contas”, relembra. Foi até o banco e pediu um empréstimo de R$ 50 mil para mobiliar o escritório, comprar equipamentos e contratar as primeiras pessoas. Ian não tinha nenhuma experiência com empreendedorismo e aprendeu tudo na marra mesmo, acertando algumas vezes e errando outras tantas.

No primeiro ano de sua agência, Ian conquistou a conta do Bradesco, seu primeiro grande cliente e com quem está até hoje. Mudaram algumas vezes de imóvel, sempre de acordo com o aluguel que cabia no bolso. Hoje, aos 38 anos, Ian Black emprega 30 pessoas (34, se contar as pessoas que trabalham de forma indireta para a agência) e administra o negócio junto ao sócio Vinicius Facco.

Eles contaram com a ajuda do irmão de Ian, Alan Câmara, que ajudou a organizar a parte financeira. Talvez por isso nunca tenham entrado “no vermelho”. Adotou uma postura diferente da maioria das agências de publicidade e faz questão de cuidar do bem-estar de seus funcionários. “Temos a preocupação com que as pessoas não trabalhem aos finais de semana, nem virem a noite no trabalho”, afirma.

A superação de um preconceito

Ian Black é negro e já sentiu, sim, um preconceito de forma disfarçada algumas vezes. Por exemplo, quando foi para uma reunião e confundiram-no com um motoboy, perguntando se ele estava ali para buscar as notas fiscais. Ou, em outra ocasião, quando estava prospectando um cliente por e-mail e, quando finalmente marcaram a reunião, ele achou que dono da agência fosse o gerente de mídia que acompanhava Ian, pelo simples fato dele ser branco. Mas isso em momento algum abalou o publicitário. “Eu uso isso mais como uma vantagem do que uma desvantagem”, afirma. “De certa forma, pra muita gente, eu represento os novos tempos e tenho sentido que as portas mais se abrem do que se fecham.”

Assine nossa Newsletter
Deixe seu e-mail abaixo e fique por dentro de todas as novidades do Meu Negócio Brilhante assinando nossa newsletter
Ao enviar o seus dados, você concorda em receber e-mail de "Meu Negócio Brilhante". Você pode cancelar sua inscrição a qualquer momento clicando no link 'Cancelar inscrição' nos e-mails que receerá de nós.

Assine nossa Newsletter

Deixe seu e-mail abaixo e fique por dentro de todas as novidades do Meu Negócio Brilhante assinando nossa newsletter

Ao enviar o seus dados, você concorda em receber e-mail de "Meu Negócio Brilhante". Você pode cancelar sua inscrição a qualquer momento clicando no link 'Cancelar inscrição' nos e-mails que receberá de nós.