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Virgínia Bicudo: pioneira na psicanálise e no estudo do racismo

Virgínia Bicudo

Nas primeiras décadas do século 20, muitos negros sequer tinha a chance de serem alfabetizados. Ainda enfrentavam, como hoje, as consequências da escravidão. Ainda assim, uma mulher negra se destacou nesse período: Virgínia Bicudo foi a primeira não médica a ser reconhecida como psicanalista e uma das primeiras sociólogas a estudar o racismo no Brasil.

Infelizmente, até hoje, Virgínia não recebe o reconhecimento que deveria e é constantemente esquecida pela história do Brasil. Mas sua importância é ilustre: ela quebrou barreiras em uma época em que mulheres negras tinha pouquíssima visibilidade ou chance de crescer na vida.

Virgínia Leone Bicudo nasceu em São Paulo em 1915, filha de um brasileiro negro e uma italiana branca. Sua avó paterna foi uma escrava alforriada. Completou a formação educacional em um colégio na Luz, região central de São Paulo, e deu continuidade aos estudos no Instituto de Higiene de São Paulo. Após o curso, tornou-se funcionária da Diretoria do Serviço de Saúde Escolar do Departamento de Educação, onde dava aulas sobre higiene em escolas estaduais.

Durante a experiência, passou a se interessar pela sociologia. Ingressou no curso de Ciências Sociais na Escola Livre de Sociologia e Política em 1936 e, em seguida, tornou-se mestra pela instituição.

Virgínia foi uma das primeiras professoras universitárias negras do Brasil e inaugurou o debate sobre racismo na academia com a tese “Estudo de atitudes raciais e pretos e mulatos em São Paulo”. Enquanto pessoa negra, achava fundamental estudar o preconceito e a discriminação pela cor.

Em sua tese, chegou a uma conclusão importante. A discriminação racial no Brasil existe de uma forma perigosa: o preconceito é velado e há ausência de confronto direto. Isso impede o desenvolvimento da consciência da discriminação. Em 1945, a estudiosa já apontava para o fato de que a existência do racismo é negada no país. No entanto, ele existe e está presente no cotidiano dos cidadãos até hoje.

Virgínia Bicudo e a difusão da psicanálise

Enquanto cursava Ciências Sociais, conheceu a psicologia social, sua porta de entrada para a psicanálise. Instigada pelas ideias sobre o subconsciente de Freud, decidiu se tornar psicanalista.

Começou então a se consultar com outra mulher, a psicanalista judia alemã Adelheid Koch, indicada pelo médico Durval Marcondes, fundador da Sociedade Brasileira de Psicanálise (SBPSP). Em 1937, Virgínia se candidatou à membro da sociedade. Foi aceita oito anos depois e continuou sócia até o fim da vida. Em 1962, foi eleita presidente da segunda diretoria do Instituto de Psicanálise.

A estudiosa faleceu em 2003 e deixou vários legados. Foi uma das principais responsáveis pela difusão da psicanálise no Brasil, redigiu colunas na imprensa, tomou a frente de programas de rádio e publicou inúmeros trabalhos.

Sobretudo, desbravou ambientes predominantemente brancos e masculinos. A produção acadêmica nas Ciências Sociais da época era dominada por homens brancos. Homens negros e mulheres brancas também tinham alguma voz, mas em proporção muito menor. A pesquisadora foi bastante prestigiada, mas também enfrentou difamações e tentativas constantes de reduzir sua voz por ser mulher e negra. Sua história merece ser relembrada.

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